Blog da Galatéia

Minha foto
... “Eu adoro todas as coisas E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido Que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, Para aumentar com isso a minha personalidade. Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio E a minha ambição era trazer o universo ao colo Como uma criança a quem a ama beija.” Álvaro de campos

Pesquisar este blog

sábado, 7 de abril de 2012

Perplexidades - Ferreira Gullar

A parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto


é estranho!

e mais estranho
ainda
me é sabê-lo

e saber

que esta consciência dura menos
que um fio de cabelo

e mais estranho ainda

que sabê-lo
é que
enquanto dura
me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado. 

Ferreira Gullar

♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥Beijosss♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fala do velho do restelo ao austronauta - José Saramago

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme. 


José Saramago

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Chorinho doce - Adélia Prado


Eu já tive e perdi
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim da casa, o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.

Adélia Prado

*******************Beijoosss*************************

terça-feira, 3 de abril de 2012

Clarice Lispector


Eu, que vivo de lado,
sou à esquerda de quem entra.
E estremece em mim o mundo.
Clarice Lispector

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Amar


Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade



♥♥♥♥♥♥♥♥♥BEI......................JOS♥♥♥♥♥♥♥♥♥

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Hilda Hilst - Roteiro do silêncio


Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito./ Tenho me fatigado tanto todos os dias vestindo, despindo/ e arrastando amor, infância, sois e sombra. Vou dizer/ coisas terríveis a gente que passa./ Dizer que não é mais possível comunicar-me (em todos os lugares o mundo se comprime. Não há mais espaço para/ sorrir ou bocejar de tédio...) Ah, triste amor/ desperdiçado, desesperançado amor, serei eu só.../ morrendo a cada instante, me perdendo? Iniciei mil vezes/ o diálogo./ Não há jeito. Preparo-me e aceito-me.// Sendo quem sou em nada me pareço.../ Sendo quem sou, não seria melhor ser diferente/ e ter olhos a mais, visíveis, úmidos/ ser um pouco anjo e duende?/ Cansam-me estas coisas que vos digo.../ Cansam-me as esperanças renovadas/ e o verso no meu peito repetido./ Cansa-me ser assim quem sou agora:/ Planície, monte, treva, transparência./ Cansa-me o amor porque exige posse e pranto/ sal e adeus.// Se te pareço noturna e imperfeita/ olha-me de novo./ Com menos altivez e mais atento./ Que aí terás certeza.
Roteiro do silêncio, Hilda Hilst


♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥Beijokas!!!!!!!!!♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥