Blog da Galatéia

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... “Eu adoro todas as coisas E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido Que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, Para aumentar com isso a minha personalidade. Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio E a minha ambição era trazer o universo ao colo Como uma criança a quem a ama beija.” Álvaro de campos

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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fala do velho do restelo ao austronauta - José Saramago

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme. 


José Saramago

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Chorinho doce - Adélia Prado


Eu já tive e perdi
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim da casa, o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.

Adélia Prado

*******************Beijoosss*************************

terça-feira, 3 de abril de 2012

Clarice Lispector


Eu, que vivo de lado,
sou à esquerda de quem entra.
E estremece em mim o mundo.
Clarice Lispector

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Amar


Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade



♥♥♥♥♥♥♥♥♥BEI......................JOS♥♥♥♥♥♥♥♥♥

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Hilda Hilst - Roteiro do silêncio


Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito./ Tenho me fatigado tanto todos os dias vestindo, despindo/ e arrastando amor, infância, sois e sombra. Vou dizer/ coisas terríveis a gente que passa./ Dizer que não é mais possível comunicar-me (em todos os lugares o mundo se comprime. Não há mais espaço para/ sorrir ou bocejar de tédio...) Ah, triste amor/ desperdiçado, desesperançado amor, serei eu só.../ morrendo a cada instante, me perdendo? Iniciei mil vezes/ o diálogo./ Não há jeito. Preparo-me e aceito-me.// Sendo quem sou em nada me pareço.../ Sendo quem sou, não seria melhor ser diferente/ e ter olhos a mais, visíveis, úmidos/ ser um pouco anjo e duende?/ Cansam-me estas coisas que vos digo.../ Cansam-me as esperanças renovadas/ e o verso no meu peito repetido./ Cansa-me ser assim quem sou agora:/ Planície, monte, treva, transparência./ Cansa-me o amor porque exige posse e pranto/ sal e adeus.// Se te pareço noturna e imperfeita/ olha-me de novo./ Com menos altivez e mais atento./ Que aí terás certeza.
Roteiro do silêncio, Hilda Hilst


♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥Beijokas!!!!!!!!!♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥

sábado, 22 de outubro de 2011

Clarice - Dá-me a tua Mão


Dá-me a tua Mão



Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

*******************saudades daqui**********************************
**********************beijosss**************************************