Blog da Galatéia

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... “Eu adoro todas as coisas E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido Que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, Para aumentar com isso a minha personalidade. Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio E a minha ambição era trazer o universo ao colo Como uma criança a quem a ama beija.” Álvaro de campos

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sábado, 13 de novembro de 2010

Clarice...


EM BUSCA DO OUTRO

"Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada."

CLarice Lispector

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

by Galatéia


Coisas da menina

Tia... agora não porque tenho um desenho muito importante prá desenhar.



***

Beijokas prá todos

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

by Galatéia


Do lado dela o sorriso era pela metade. As palavras curtas. A distância segura. Do lado dela desfazia-se. Mãos nas costas. Passos lentos. Olhar perdido.

É porque do lado dela ele não podia.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Clarice Lispector - A descoberta do mundo














Banhos de mar

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”. Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.

Clarice Lispector

Clarice Lispector (infantil)


Como nasceram as estrelas


Pois é, todo mundo pensa que sempre houve no mundo estrelas pisca-pisca. Mas é erro. Antes os índios olhavam de noite para o céu escuro — e bem escuro estava esse céu. Um negror. Vou contar a história singela do nascimento das estrelas. Era uma vez, no mês de janeiro, muitos índios. E ativos: caçavam, pescavam, guerreavam. Mas nas tabas não faziam coisa alguma: deitavam-se nas redes e dormiam roncando. E a comida? Só as mulheres cuidavam do preparo dela para terem todos o que comer.
Uma vez elas notaram que faltava milho no cesto para moer. Que fizeram as valentes mulheres? O seguinte: sem medo enfurnaram-se nas matas, sob um gostoso sol amarelo. As árvores rebrilhavam verdes e embaixo delas havia sombra e água fresca. Quando saíam de debaixo das copas encontravam o calor, bebiam no reino das águas dos riachos buliçosos. Mas sempre procurando milho porque a fome era daquelas que as faziam comer folhas de árvores. Mas só encontravam espigazinhas murchas e sem graça. — Vamos voltar e trazer conosco uns curumins.
(Assim chamavam os índios as crianças.) Curumim dá sorte.
E deu mesmo. Os garotos pareciam adivinhar as coisas: foram retinho em frente e numa clareira da floresta — eis um milharal viçoso crescendo alto. As índias maravilhadas disseram: toca a colher tanta espiga. Mas os gatinhos também colheram muitas e fugiram das mães voltando à taba e pedindo à avó que lhes fizesse um bolo de milho. A avó assim fez e os curumins se encheram de bolo que logo se acabou. Só então tiveram medo das mães que reclamariam por eles comerem tanto. Podiam esconder numa caverna a avó e o papagaio porque os dois contariam tudo. Mas — e se as mães dessem falta da avó e do papagaio tagarela? Aí então chamaram os colibris para que amarrassem um cipó no topo do céu. Quando as índias voltaram ficaram assustadas vendo os filhos subindo pelo ar. Resolveram, essas mães nervosas, subir atrás dos meninos e cortar o cipó embaixo deles.
Aconteceu uma coisa que só acontece quando a gente acredita: as mães caíram no chão, transformando-se em onças. Quanto aos curumins, como já não podiam voltar para a terra, ficaram no céu até hoje, transformados em gordas estrelas brilhantes.
Mas, quanto a mim, tenho a lhes dizer que as estrelas são mais do que curumins. Estrelas são os olhos de Deus vigiando para que corra tudo bem. Para sempre.
E, como se sabe, “sempre” não acaba nunca

Clarice Lispector


Beijokas e feliz dia das crianças! :)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Crianças e sonhos















escrito por Galatéia.

Pensar em dia das crianças é pensar em sonhos. Quando ainda somos pequeninos os sonhos sempre parecem possíveis e todos os anjos dizem amém quando estamos maquinando um sonho novinho.

Quando a infância acaba nossos sonhos perdem seus anjos. A mágica do possível, vítima de tantos "nãos", se transforma em obstáculos implacáveis e desistimos facilmente. Os sonhos já não são tão importantes.

Realizar o sonho de uma criança é recriar o sonho dentro do adulto incrédulo.

Eu recrio meus sonhos de infância não concretizados no brilho dos olhos da criança de hoje. Mergulho. Me entrego. Sou criança novamente. E assim ninguém pode me dizer que é impossível.

sábado, 18 de setembro de 2010

Manoel N. Silva


O meu quintal!


Meu quintal é Mágico, não no sentido tradicional dessa palavra, mas, pela diversidade que nele existe, pela sua capacidade de abrigar, em tão pouco espaço, tantas espécies de plantas e pequenos animais, além de mim, esse ser estranho que observa tudo...

É um espaço pequeno, medindo cerca de 60 m², no lado direito está uma lavanderia, destas de mármore, com duas bacias, separadas por uma espécie de rampa ondulada, que é onde se esfrega a roupa... Há sobre este espaço uma coberta em telhas de amianto, e em toda extensão do quintal a uma altura aproximada de 2m existem cordões de nylon que servem como varal...

O piso é em cimento bruto, sem acabamento, em toda extensão ao pé do muro, existe um espaço de cerca de dois metros ladeado por uma mureta de 20 cm, em solo natural, que é onde estão as plantas, minha pequena floresta...minha horta e meu pomar

As águas da chuva que se acumulam, nos minúsculos lagos do cimento sem acabamento, produziram uma camada esverdeada de algas, principalmente na mureta que rodeia o “jardim”. Objetos diversos, um carrinho de mão, enxada, pá, vassouras e um monte de bugigangas, que estão armazenadas, coisas que podem um dia servir para algo, ou nunca serem utilizadas... Estas estão dentro de um pequeno quarto sem portas de cerca de 3 m², uma pequena dispensa de utilidades inúteis.

Existe nele, um mamoeiro, pés de pepinos, alguns pés de quiabos, crótons, gengibre, alfavaca, hortelã, babosa, “capim santo”, erva cidreira, erva-doce e uma infinidade de plantinhas silvestres que nascem aleatoriamente em qualquer local...

Durante todo o dia, uma grande diversidade de pequenos animais, fazem do meu quintal um estranho mundo a parte..logo pela manhã, pássaros urbanos(pardais, lavadeiras, rolinhas) passeiam pelo tapete de algas em busca de insetos e sementes, restos de comida, migalhas que naturalmente se acumulam no quintal. Enquanto isso pequenos lagartos, moradores constantes, passeiam se deliciando com formigas, e claro, as migalhas, pois para eles é bem mais cômodo do que caçar pequenos insetos...

O sol vai iluminado as reentrâncias das plantas e nelas vão surgindo, aranhas, besouros, libélulas começam a “beber” o orvalho que se acumula nas folhas do mamoeiros e em pequenas poças pelo cimento irregular. Borboletas, grilos, louva-deuses... O meu quintal parece fervilhar de existência. A vida é tão presente e diversa que chega a incomodar, sufocar, com sua presença maciça, ela parece querer mostrar que está ali, mesmo que contra todas as adversidades impostas pela natureza e pelo homem, ela sobrevive, adapta-se, insiste, teima em continuar existindo...!

Costumo dizer que ele é um universo em miniatura, o meu mundo particular. Nele aos sábados à tarde, coloco uma cadeira, abro uma garrafa de vinho, coloco música no “microsistem”, e mergulho nele, esse mundo, onde sou senhor, deus determinante da vida, do bem e do mal. sou capaz de esmagar uma formiga sem razão, privar um lagarto de sua comida, destruir a fauna e a flora do meu mundo, apenas ao sabor do meu humor... posso expulsar os pardais, destruir as tarântulas que esporadicamente aparecem, simplesmente por que são feias, cabeludas, assustam minha esposa...então eu pego álcool e jogo nela risco o fósforo e ela vira uma bola de fogo azulada que corre em zigue-zague frenético, eu quase penso que escuto um gemer, um grito de desespero, um urro de dor...mas eu sou deus do meu quintal, sou justo! Isso é apenas minha imaginação... Aos poucos essa bola azulada vai diminuindo o ritmo, e de repente estanca, as chamas tremulam, cedem, vão diminuindo e eu entrevejo negros garranchos que se contorcem, contraem formando uma pequena bolota negra, disforme e de cheiro similar a cabelos e pele chamuscados...tomo um gole...e pego uma pázinha de lixo, recolho aquele bolo inerte, composto de carvão e cinzas e jogo no cesto do lixo... Já não existe tarântula no meu quintal...

Neste Quintal, neste espaço mágico, eu vejo tudo, a sociedade, a vida! Através do meu quintal eu contemplo a modificação diária que a humanidade sofre. Vidas são sacrificadas, espécies se extinguem, outras se modificam, ganham novos hábitos e se adaptam ao quintal... nada é do mesmo jeito...a todo instante o meu quintal muda...a cada sábado à tarde, eu me deparo com um novo mundo, um novo universo, apenas algumas velhas e gordas “lagartixas”, que praticamente se domesticaram e eu,parecem iguais! Elas, já não saberiam viver longe deste quintal, já perderam o instinto, o medo do ser humano, não sabem mais caçar... estariam liquidadas em poucos dias...lá fora no mundo real !!!

Bem, eu me sinto onipotente, uma sensação de poder inimaginável e ao mesmo tempo uma solidão, um vazio tão grande quanto a onipotência que me foi conferida neste universo mágico. Eu tenho todo o controle sobre esse universo, eu posso tudo neste mundo, posso aniquilar desde o simples “lodo” até a maior árvore que existe nele, eu posso de uma hora para outra decretar o fim de toda vida neste pequeno universo. Posso limpar tudo, não sobrará uma erva, uma formiga.... Mas esse pensamento, essa consciência deste poder me congela por dentro! Me aterroriza, eu entro em pânico!

Entre vinho e som, entre lucidez e embriaguez eu questiono o meu poder sobre as vidas deste quintal... Que direito eu tenho de decidir sobre tantas vidas, são milhares, milhões, bilhões se for contar com micróbios e bactérias... Eu olho ao redor e me encolho na cadeira, sinto frio, um arrepio me passa em todo o ser e é como se me arrepiasse por dentro... Eu fecho meus olhos, sinto rodar o mundo, parece que sinto o movimento de rotação da terra ou que sou eu a terra e que giro em torno do meu eixo... Essa sensação de unidade, de onisciência, de onipresença, de integração me apavora! É como se eu sentisse pulsar em mim cada ser, cada minúscula vida que existe neste universo, do qual me faço o centro, e agora, mesmo depois de aberto os olhos, depois de mais um gole, ainda me sinto espalhar pelo quintal... Sinto que estou em cada minúsculo furo, nas frestas dos tijolos, nas folhas das plantas, escorro entre a areia, penetro entre os grãos..sou tudo..sinto tudo!!


Meu corpo se dissolve, ele já não existe como corpo é apenas uma idéia na minha mente... Já não existo como forma, eu sou todas as formas eu faço todas as formas, eu tenho todas as formas em mim! Minha consciência se dissolve também, ela se espalha, perde consistência, são tantos pensamentos diferentes, tantos sons, tantas cores, visões oníricas, perspectivas nunca dantes imaginadas, por minha mente... eu vejo de todos os ângulos, em todas as direções e ao mesmo tempo, nada me escapa a visão, eu sou todo sentidos e a sensibilidade é infinita, eu sinto, todos os cheiros, escuto todos os sons, vejo todas as cores..eu sou a consciência de tudo, eu tenho a consciência de tudo... eu já não sou o senhor do meu quintal...eu sou meu quintal!!

Manoel N. Silva


:) Beijos