Blog da Galatéia

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... “Eu adoro todas as coisas E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido Que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, Para aumentar com isso a minha personalidade. Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio E a minha ambição era trazer o universo ao colo Como uma criança a quem a ama beija.” Álvaro de campos

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Paulo Leminsk


Eu


eu

quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora

não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro

este poema me olha

Paulo Leminsk

***************************beijokas**********************************

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sempre Clarice


Há um tipo de choro bom e há outro ruim.

O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e,

no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem.

Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro

como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando

se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se:

não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar.

É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue

a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que

respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de

uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar

e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado,

límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta

às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora.

Eu já vi homem chorar.





Clarice Lispector


****************************Beijokas****************************************

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Oscar Wild - O rouxinol e a rosa


O Rouxinol e a Rosa



_ Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim…

Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado…

_ Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas. – Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo… O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

_ Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha… Ah… Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim… e ficarei só; ela apenas passará por mim… Passará por mim… e meu coração se despedaçará.

_ Eis um verdadeiro apaixonado… – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

_ Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe… – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

_ Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

_ É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

_ Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

_ Chora por causa de uma rosa vermelha, – informou o Rouxinol.

_ Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.

Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou.

Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.

_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

_ Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

_ Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.

A roseira sacudiu-se levemente.

_ Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

_ Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, – uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

_ Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

_ Dize. Não tenho medo.

_ Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

_ A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa… É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola…O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.

_ Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

_ Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

_ Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou…

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, – exigiu a Roseira, – senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.

O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.

E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.

_ Mais ainda, Rouxinol, – clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.

Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.

A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

_ Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.

Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.

_ Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

_ Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, – lembrou o Estudante. – Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.

A moça franziu a testa.

_ Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores…

_ És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

_ Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante… não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda… – e a moça levantou-se e entrou em casa.

_ Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.

Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler…

Oscar Wild

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sábado, 9 de julho de 2011

Voltaire


Cosi-Sancta – Um Pequeno Mal por um Grande Bem


É uma das tantas máximas falsamente acreditadas, essa de que não é permitido fazer um pequeno mal de que possa resultar um bem maior. Mas era assim que pensava Santo Agostinho, como se pode depreender da narrativa desta pequena aventura acontecida na sua diocese, sob o proconsulado de Septímio Acindino, e que vem no livro da Cidade de Deus.

Havia em Hipona um velho cura, grande inventor de confrarias, confessor de todas as raparigas da vizinhança, e que passava por homem inspirado de Deus, pois costumava deitar sortes, ofício de que se desempenhava assaz passavelmente.

Levaram-lhe um dia uma jovem chamada Cosi-Sancta; era a mais bela criatura da província. Tinha pais jansenistas que a haviam educado nos princípios da mais rígida virtude; e, de todos os pretendentes que tivera, não houvera um só que lhe causasse um momento de distração nas suas preces. Fazia alguns dias que fora ela prometida a um velhote encarquilhado, chamado Capito, conselheiro do presidial de Hipona. Era um homenzinho brusco e rabugento a quem não faltava inteligência, mas que era ríspido de conversação, escarninho, e amante de brincadeiras de mau gosto; e, de resto, ciumento como um veneziano, e que por nada no mundo se teria conformado em ser amigo dos galanteadores da esposa. A jovem criatura fazia o possível para amá-lo, pois que ele deveria ser seu marido; mas por maior boa-fé com que se empenhasse em tal coisa não conseguia nada.

Foi pois consultar o seu cura para saber se seria feliz no casamento. O nosso padre disse-lhe num tom profético:

Minha filha, a tua virtude causará desgraças, mas serás um dia canonizada por teres sido três vezes infiel a teu esposo.

Esse espantoso oráculo escandalizou cruelmente a inocência da bela rapariga. Ela pôs-se a chorar; depois pediu explicações, julgando que tais palavras ocultavam, algum sentido místico; mas a única explicação que conseguiu foi que as três vezes não deviam ser interpretadas como três encontros com o mesmo amante, mas sim como três aventuras diferentes.

Cosi-Sancta pôs-se então aos gritos; chegou até a dizer algumas injúrias ao bom do cura, e jurou que nunca seria canonizada. E no entanto o foi, como já ides ver.

Casou-se pouco depois: as núpcias foram esplêndidas; ela suportou muito bem todos os maus discursos que teve de ouvir, todos os trocadilhos sem graça, todas as grosserias mal disfarçadas com que costumam constranger o pudor das noivas. Dançou de bom grado com alguns jovens muito bem parecidos e com os quais o marido não simpatizou absolutamente.

E foi deitar-se ao lado do pequeno Capito, com um pouco de repugnância. Passou boa parte da noite a dormir; e acordou-se muito pensativa. Mas o assunto das suas cismas não era tanto o marido, e sim um jovem chamado Ribaldos, que lhe tomara conta do pensamento, sem que ela propriamente o suspeitasse. Esse jovem parecia formado pelas mãos do Amor, de quem tinha as graças, a ousadia e o espírito travesso; era um pouco indiscreto, mas só com aquelas que no fundo assim queriam: era a coqueluche de Hipona. Incompatibilizara todas as mulheres da cidade umas com as outras e, por sua vez, estava incompatibilizado com todos os maridos e todas as mães. Amava, de ordinário, por estouvamento, e um pouco por vaidade; mas amou Cosi-Sancta por gosto, e tanto mais perdidamente quanto mais difícil se lhe antolhava a conquista.

Como homem de espírito que era, aplicou-se de início em agradar ao marido. Fazia-lhe mil cumprimentos, felicitava-o por sua boa fisionomia e seu espírito arejado e galante. Perdia para ele no jogo, e todos os dias lhe fazia alguma pequena confidência. Cosi-Sancta achava-o a criatura mais amável do mundo. Já o amava mais do que supunha; era verdade que não o suspeitava, mas o marido suspeitou por ela. Embora tivesse todo o amor-próprio que um homenzinho possa ter, não deixou de desconfiar que as visitas de Ribaldos não eram somente para ele. Rompeu com este sob qualquer pretexto, e proibiu-lhe a entrada em casa.

Cosi-Sancta ficou muito aborrecida, mas não ousou dizê-lo; e Ribaldos, cujo amor crescera com as dificuldades, passava todo o tempo a espiar uma oportunidade para a ver. Disfarçou-se de monge, de vendedor de roupas, de apresentador de títeres. Mas não fez o bastante para triunfar de sua amada, e fez demasiado para que não fosse reconhecido pelo esposo. Se Cosi-Sancta estivesse em combinação com ele, saberiam ambos como tomar as necessárias medidas para que o marido nada suspeitasse; mas, visto que ela combatia as suas inclinações, e nada tinha a censurar-se, salvava tudo, fora as aparências, e o marido a julgava culpabilíssima.

O homenzinho, que era muito colérico e que imaginava que a sua honra dependia da fidelidade da mulher, ultrajou-a cruelmente, e puniu-a pelo fato de a acharem bela. E Cosi-Sancta se viu na mais horrível situação em que possa estar uma mulher: acusada injustamente e maltratada por um marido a quem era fiel, e dilacerada por uma paixão violenta que procurava dominar.

Achou que, se o seu apaixonado parasse com as perseguições, poderia o marido parar com as injustiças, e que ela se daria por muito feliz curando-se de um amor que nada mais alimentava. Nessa intenção, aventurou-se a escrever a Ribaldos a seguinte carta:

Se tendes virtude, deixai de tornar-me infeliz: vós me amais, e o vosso amor me expõe às suspeitas e às violências de um senhor que eu me impus para o resto da vida. Quem dera que fosse esse o único risco em que eu incorro! Por piedade, deixai de perseguir-me; conjuro-vos a isso por este mesmo amor que constitui vossa desgraça e a minha, e que jamais vos poderá fazer feliz.

Não previra a pobre Cosi-Sancta que uma carta tão terna, embora tão virtuosa, causasse um efeito inteiramente contrário ao que esperava. Só serviu para inflamar mais do que nunca o coração de seu enamorado, que resolveu expor a vida para avistar-se com ela.

Capito, que era assaz tolo para querer ser informado de tudo e que tinha bons espiões, foi avisado de que Ribaldos se disfarçara em carmelita pedinte para ir implorar caridade à sua mulher. Julgou-se perdido: imaginou que um hábito de carmelita era muito mais perigoso que qualquer outro para a honra de um marido. Contratou alguns homens para darem uma sova no irmão Ribaldos, no que foi muito bem servido. O jovem, ao entrar na casa, foi recebido pelos tais senhores: por mais que bradasse que era um honrado carmelita e que não era assim que se tratavam pobres religiosos, recebeu valente sova, vindo a morrer dali a quinze dias de um golpe que recebera na cabeça. Choraram-no todas as mulheres da cidade. Cosi-Sancta ficou inconsolável. O próprio Capito aborreceu-se muito, mas por outro motivo: é que se metera numa terrível situação.

Ribaldos era parente do procônsul Acindino. Quis esse romano dar um castigo exemplar àquele assassínio, e, como outrora tivera algumas questões com o presidia de Hispano, não se incomodou em achar tal pretexto para enforcar um conselheiro; e ainda mais se agradou de que a sorte coubesse a Capito, que era na verdade o mais vaidoso e insuportável togado da região.

Cosi-Sancta vira pois assassinarem o seu apaixonado, e estava prestes a ver enforcarem o marido; e tudo isso por ter sido virtuosa. Porque, como já disse, se houvesse concedido seus favores a Ribaldos, o marido teria sido muito menos enganado.

Eis como se cumprira a metade da predição do cura. Cosi-Sancta lembrou-se então do oráculo, e muito se arreceou de cumprir o resto. Mas, tendo refletido que não se pode vencer o destino, entregou-se à Providência, que a levou ao fim pelos mais honestos caminhos do mundo.

O procônsul Asinino era um homem mais debochado que voluptuoso, que muito pouco se divertia nas preliminares, um sujeito brutal, sem cerimônias, verdadeiro herói de guarnição, muito temido na província, e com quem todas as mulheres de Hispano haviam tido um caso, unicamente para evitar complicações.

Mandou chamar a senhora Cosi-Sancta. Ela chegou banhada em lágrimas, o que não deixava de lhe aumentar os encantos.

— Vosso marido, Senhora, vai ser enforcado, e só de vós depende a sua salvação.

— Eu daria a minha vida pela sua – respondeu-lhe a dama.

— Ha! mas não é isso que se vos pede – replicou o procônsul.

— Que é preciso então fazer? – indagou ela.

— Desejo apenas uma de vossas noites – tornou o procônsul.

— Elas não me pertencem – disse Cosi-Sancta. – São um bem de meu marido. Darei meu sangue para salvá-lo, mas não posso dar a minha honra.

— Mas se vosso marido consentir? – perguntou o procônsul.

— Ele é o proprietário – respondeu a dama – e cada qual tem o direito de dispor dos seus bens como lhe aprouver. Mas conheço meu marido, não abrirá mão de nada; é um sujeitinho cabeçudo, que preferirá deixar-se enforcar a permitir que me toquem com um dedo.

— É o que veremos – disse o juiz, encolerizado.

Imediatamente manda chamar o criminoso; propõe-lhe ou a forca ou um par de ornamentos: não havia outra alternativa. O homenzinho começou com coisas. Mas afinal fez o que qualquer outro teria feito no seu lugar. Sua esposa, por pura caridade, salvou-lhe a vida. E foi essa a primeira das três vezes.

No mesmo dia o seu filho caiu doente de uma enfermidade assaz extraordinária e que nenhum médico de Hipona conhecia. Só havia um que estava a par dos segredos dessa doença, mas que morava em Áquila, a algumas léguas de Hipona. Era então proibido que um médico estabelecido numa cidade saísse desta para ir exercer em outra a sua profissão. Cosi-Sancta viu-se obrigada a ir procurá-lo pessoalmente em Áquila, com um irmão que tinha e a quem estimava muito. No caminho foi detida por salteadores. O chefe dos referidos cavalheiros achou-a muito bonita. E, como o irmão de Cosi-Sancta estava prestes a ser morto, aproximou-se e disse-lhe que, se ela tivesse um pouco de complacência, não lhe matariam o irmão e que isso afinal não lhe custaria nada. A coisa era urgente. Cosi-Sancta acabava de salvar a vida do marido, a quem não amava; ia perder um irmão a quem estimava muito; por outro lado, alarmava-a o perigo de seu filho; não havia um minuto a perder. Ela encomendou-se a Deus, e fez tudo o que quiseram. E foi essa a segunda das três vezes.

No mesmo dia chegou em Áquila e foi ter com o médico. Era um desses médicos da moda que as mulheres mandam chamar quando têm vapores ou quando não têm absolutamente nada. Era confidente de umas e amante de outras; homem polido, condescendente, um pouco estremecido aliás com a Faculdade, contra a qual fizera a propósito uns bem aplicados gracejos.

Cosi-Sancta lhe expôs a doença do filho e ofereceu-lhe um sestércio grande. (E notai que um desses sestércios corresponde, em moeda de França, a mais de mil escudos.)

— Não é. com essa moeda que eu pretendo ser pago, Senhora – respondeu o galante médico. – Eu próprio vos ofereceria todos os meus haveres, se quisésseis cobrar as curas que podeis fazer: curai-me apenas do mal que me causais, e eu devolverei a saúde a vosso filho.

A proposta pareceu extravagante à dama, mas o destino a acostumara às coisas mais estranhas. O médico era um teimoso que não queria outro preço pelo seu remédio. Cosi-Sancta não tinha o marido à mão, para o consultar. Mas como deixar morrer um filho a quem adorava, por falta daquele pequeno auxílio que ela lhe poderia dar?! Era tão boa mãe quanto boa irmã. Comprou o remédio pelo preço que lhe pediram. E foi essa a última das três vezes.

Voltou a Hipona com o irmão, que não cessava de agradecer-lhe, durante o caminho, a coragem com que lhe salvara a vida.

Assim Cosi-Sancta, por ter sido, demasiado virtuosa, fez morrer o seu amado e condenar o marido à morte, e, por ter sido complacente, conservou os dias do irmão, do filho e do marido. Acharam que uma mulher como essa era muito necessária em uma família, canonizaram-na após a morte, por ter feito tanto bem a seus parentes, mortificando-se, e gravaram-lhe no túmulo: UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM.

Voltaire


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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Virginia Woolf


Segunda ou Terça-feira



Preguiçosa e indiferente, vibrando facilmente o espaço com suas asas, conhecendo seu rumo, a garça sobrevoa a igreja por baixo do céu. Branca e distante, absorta em si mesma, percorre e volta a percorrer o céu, avança e continua. Um lago? Apaguem suas margens! Uma montanha? Ah, perfeito – o sol doura-lhe as margens. Lá ele se põe. Samambaias, ou penas brancas para sempre e sempre.

Desejando a verdade, esperando-a, laboriosamente vertendo algumas palavras, para sempre desejando – (um grito ecoa para a esquerda, outro para a direita. Carros arrancam divergentes. Ônibus conglomeram-se em conflito) para sempre desejando – (com doze batidas eminentes, o relógio assegura ser meio-dia; a luz irradia tons dourados; crianças fervilham) – para sempre desejando a verdade. O domo é vermelho; moedas pendem das árvores; a fumaça arrasta-se das chaminés; ladram, berram, gritam “Vende-se ferro!” – e a verdade?

Radiando para um ponto, pés de homens e pés de mulheres, negros e incrustados a ouro – (Este tempo nublado – Açúcar? Não, obrigado – a comunidade do futuro) – a chama dardejando e enrubescendo o aposento, exceto as figuras negras com seus olhos brilhantes, enquanto fora um caminhão descarrega, Miss Fulana toma chá à escrivaninha e vidraças conservam casacos de pele.

Trêmula, leve-folha, vagueando nos cantos, soprada além das rodas, salpicada de prata, em casa ou fora de casa, colhida, dissipada, desperdiçada em tons distintos, varrida para cima, para baixo, arrancada, arruinada, amontoada – e a verdade?

Agora recolhida pela lareira, no quadrado branco de mármore. Das profundezas do marfim ascendem palavras que vertem seu negrume. Caído o livro; na chama, no fumo, em momentâneas centelhas – ou agora viajando, o quadrado de mármore pendente, minaretes abaixo e mares indianos, enquanto o espaço investe azul e estrelas cintilam – verdade? Ou agora, consciente da realidade?

Preguiçosa e indiferente, a garça retoma; o céu vela as estrelas; e então as revela.

Virginia Woolf

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Oscar Wild


O Artista

Um dia, despertou-lhe na alma o desejo de esculpir uma estátua do Prazer que dura um instante. E partiu pelo mundo à procura do bronze, porque ele só podia trabalhar o bronze. Mas todo o bronze existente no mundo havia desaparecido e em nenhuma parte o metal seria encontrado, a não ser na estátua da Dor que é permanente.

E fora ele que, com as próprias mãos, fundira essa estátua, erigindo-a no túmulo de alguém a quem muito amara na vida. E na tumba da morta, que tanto amara, colocou a própria criação, como um símbolo do amor masculino, que é imortal, e a dor humana, que dura a vida inteira.

E em todo o mundo não havia bronze, a não ser o dessa estátua.

Ele, então, retirou a estátua que moldará, põ-la num grande forno, deixando-a derreter-se.

E com o bronze da estátua da Dor que é permanente, fundiu a do Prazer que dura um instante.

Oscar Wild


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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Clarice - O primeiro beijo


O Primeiro Beijo


Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.

- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…

Ele se tornara homem.




Clarice Lispector
“Felicidade Clandestina” – Ed. Rocco – Rio de Janeiro, 1998

:) Bom dia!*****************************************